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MONSTRO






Há monstros que vivem em grutas solitárias. São apenas voz. Já foram corpo. Como Eco, nas Metamorfoses de Ovídio. Há monstros familiares e monstros estranhos. Como Cila, na Odisseia de Homero. Tipos teratológicos, divinizados, ocupam lugar no panteão dos deuses. Cosmografias escondem monstros celestes. Almas transmigram de um corpo para outro. Pessoas, animais, plantas, espécies diferentes, fecundam entre si. O monstro pertence à categoria dos fenómenos contra-natura, à natureza não considerada na sua imutabilidade absoluta mas no fluxo que lhe é habitual. Assim era para Aristóteles.

Monstrum, do latim. Conceito milenar, avaria e excesso da natureza. É o que possivelmente encontramos quando nos dizem: “olha-te ao espelho”. Existências incorrigíveis, ódios, vinganças, instintos, desvios, horrores, mulheres e homens de cem cabeças. Monstros em paisagens obscuras são colocados no fim do mundo. Afastam-se do nosso olhar, onde nenhum vento sopra. Do outro lado tudo é desmedidamente grandioso e vagabundo. Imperfeições que um certo tipo de pensamento ortopédico está sempre disponível para examinar, reparar e corrigir.

“O sono da razão produz monstros”, enunciou Goya numa das suas obras, assim libertando criaturas perturbadoras e forças demoníacas. Nunca nos disseram com o que terá sonhado a bela adormecida. Talvez os sonhos intermináveis sejam calados ou preservados. Apagados. Sem lei.


A teratologia, essa antologia de possibilidades combinatórias entre alegorias, deformações, fábulas e exotismos, ainda e sempre excluída da nossa história, descobre-se soterrada tanto nas instâncias da metafísica, como no juízo teológico, moral, ideológico, político e iconográfico. Monstros em todo o lado. O gesto da exclusão marcado em imagens que cristalizam a ruptura com o exterior. Descrições que queimam a verdade em páginas entristecidas que um dia será preciso reescrever.
Como bem assinalaram Ernest Martin ou Michel Foucault, o monstro disruptivo, que as tecnologias de normalização do poder transformam em cadáver, é o inimigo de um mundo escrito em linha recta. Entre a ordem e a desordem, o lícito e o ilícito, o normal e o anormal, é todo um mecanismo binário a revelar-se. Todavia, é igualmente a anatomia da infracção, do choque e do questionamento de forças, que o monstro convoca. Um claro-escuro que liberta.


O que descobriríamos se não existisse uma fortaleza única, se o monstro desatinado abalasse a regulamentação autoritária das categorias do pensamento? O medo. Ou o assombro.

Para falar de sinais divinos e prodígios que encontravam nos monstros, os gregos diziam τέρς (teras).

M de monstro. M de museu. Os gregos sempre compreenderam que monstruoso rima com maravilhoso.


— Texto escrito de acordo com a antiga ortografia

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