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Tentativas de Voo

o canto, a leveza, a cegueira





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O programa TENTATIVAS DE VOO—o canto, a leveza, a cegueira, é constituído por seis exposições em espaços internacionais e um projecto editorial que inclui textos críticos, ensaios visuais e registos das várias exposições.  As propostas expositivas que configuram o programa curatorial, diferentes em cada um dos espaços de apresentação, articulam vídeo, instalação, desenho, objectos e som. O voo não terá direcção. Apenas espaço indistinto. Sem alicerces.

Curadoria — Eduarda Neves





A história da arte está atravessada por imagens do voo. A prática normalizada e comprometida do voo, sem dissonância ou sobressalto, é como o corpo sem corpus, a língua sem desordem. O voo é uma fábula. Arrebatamento que desloca os lugares, os ventos, as distâncias e a proximidade, sem função ou ligação operatória, sem o Déspota real ou o Deus imaginário — o encontro com Félix Guattari. Poucas foram as mulheres que pintaram pássaros. Diz-se que não era possível sair de casa durante um longo período de tempo ou, então, talvez voar ainda fosse um atrevimento do desejo.


“Resta o azul dos rios e, por vezes, o do céu. Resta também a chuva. E as árvores.”
—Marguerite Duras











Ícaro sai do labirinto e aproxima-se do Sol. A liberdade não mata. As asas não se desfazem. Reinventam-se. Vários foram os artistas que tentaram voar. O voo é uma condição trágica da arte. Nietzschianamente, afirma-se como um princípio do futuro. Bailarino-Zaratustra. Voar é excitante e desejante.  Estimulante. Tentativo di Volo, (1969) é uma obra do artista italiano Gino de Dominicis e constitui uma referência deste projecto curatorial. A repetição do fracasso não impede o artista de continuar. Ouvimos em voz off: “Há três anos que repito este mesmo exercício. Provavelmente nunca aprenderei a voar, mas se fizer o meu filho praticar isto, e os filhos dos meus filhos, então talvez um dos meus descendentes descubra como voar”. Repetimos os acidentes e tropeçamos nas muralhas que nos impedem de escutar distintos batimentos. Que outro enunciado poderíamos escolher para a condição da arte hoje?

“Cegam-se aves para cantarem melhor; não creio que actualmente os homens cantem melhor do que os seus antepassados, mas sei que os cegam muito cedo; mas o meio, o meio infame de que se servem para os cegar, é o uso de uma luz demasiado crua, excessivamente repentina e instável.”
— Friedrich Nietzsche
Gostaria de pintar a maneira como um pássaro canta — terá dito Monet. Um voo derivado, lateral, que quebre todas as direcções e as coloque umas contra as outras, sem orientação. Sobrevoar o tempo — é o que procuramos nas exposições. Obras que em cada espaço nos apresentam diferentes sonoridades, múltiplas levezas, alegres cegueiras que não servem a ninguém. Coisas frágeis, sem modelo e sem estilo. Sem verdade. Sem o ar do tempo. Deslocalizadas. Outras forças solares nos movem. As obsessões de cada artista bastam-nos. Já são muito. São tudo.


Mais que máquina desejante, o voo transfigura-se em máquina delirante. Contra o peso de Medusa, a leveza de um cavalo alado. Pégaso, nascido de uma paixão impossível, é recompensado por Zeus e transformado numa constelação. No céu azul grava-se a natureza do mundo.


“Pássaros vi-os com o meu olhar perfurante voar tão alto, tão longe, que pareciam em descanso, mas um instante depois apareciam à minha volta, alguns corvos foram responsáveis por isso.”
—Samuel Beckett





Louise Lawler — Birdcalls. A nossa vida continua a erguer-se como um pássaro que foge da agonia perante a imagem de um caçador. Assim se voa.



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