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Estórias da Casa
e do Plantio

Curadoria — Eduarda Neves     Folha de Sala




os rumores do mundo e outras estórias

Curadoria — Eduarda Neves






A história da arte está atravessada por imagens do voo. A prática normalizada e comprometida do voo, sem dissonância ou sobressalto, é como o corpus sem corpo, a língua sem desordem. O voo é uma fábula. Arrebatamento que desloca os lugares, os ventos, as distâncias e a proximidade, sem função ou ligação operatória, sem o Déspota real ou o Deus imaginário — o encontro com Félix Guattari. Poucas foram as mulheres que pintaram pássaros. Diz-se que não era possível sair de casa durante um longo período de tempo ou, então, talvez voar ainda fosse um atrevimento do desejo.


“Resta o azul dos rios e, por vezes, o do céu. Resta também a chuva. E as árvores.”
—Marguerite Duras

A exploração financeira não destrói apenas as populações humanas e animais. De igual maneira, as espécies vegetais são colocadas ao serviço da exploração sistemática dos recursos naturais. Sem qualquer fronteira entre individual e colectivo, real e imaginário, a proposta configura-se como programa crítico do abismo ecológico na sociedade global. Enunciando a destruição da natureza e o abandono de uma ética ambiental, a artista interroga as relações entre o mercado financeiro e as ameaças à biodiversidade, o imaginário capitalista, as relações entre a ecologia e a organização psicossocial, a interacção com o nosso habitat e até a natureza das nossas relações de vizinhança. É David Wallace-Wells que nos lembra as palavras de E. O. Wilson quando este autor já argumentara que a nossa época se devia chamar “Eremoceno — a Era da Solidão”. Se um qualquer projecto político democrático deve integrar a ecologia, também o desequilíbrio em torno dos recursos do planeta desenha a imagem da progressiva catástrofe natural — a obra de Patrícia Geraldes, traçando uma aproximação crítica a estas dimensões, não interroga apenas um qualquer estoicismo da representação mas, antes, incorpora o presente do mundo que, à maneira deleuziana, é passado e futuro.Um espaço único que acolhe o tempo de todas as estações.





O rio. O Côa. Abismos que também são genealógicos. Memórias e sonoridades ancestrais. A aventura arqueológica. As estórias da história. Vestígios que manifestam a linguagem do dia primeiro. E de todos os outros. Sem antes nem depois. Plantas, terra e árvores, camadas rochosas arrancadas à superfície da terra, irrompem nas fissuras do tempo, devolvem-nos heranças locais e formas de vida que são também possibilidades de cura e subsistência. A transubstanciação da matéria sem insecticidas que destroem os parasitas das plantas e dos quais muitas aves se alimentam — um apelo ao equilíbrio ecológico é o que aqui igualmente se reivindica. Participando do retorno à natureza que a arte contemporânea instaura, é o diálogo com este universo sensorial dos elementos naturais que se converte no dispositivo a partir do qual o público é interpelado — intensificação da experiência e efeito da acção recíproca entre arte e paisagem. Não se trata de simples contemplação mas, sobretudo, de implicação física que convoca o espaço como agenciamento vital do corpo. Como se de uma orquestra se tratasse, todos os elementos desenvolvem ligações entre si, fixam uma subtil carga simbólica a esta espécie de psicogeografia do lugar.




Subtraindo-se ao lugar condicionado do museu, a obra que se inscreve directamente no meio envolvente afirma-se como celebração e território de pesquisa. Nestas estórias, exalta-se uma casa comum — aquela em que vivemos desde sempre e que nunca nos dissociou do mundo. Nem o esquecimento que por momentos nos invade é capaz de tornar possível a falsa separação. Como escreveu Michel Serres: “quem representará a terra e o fogo, as abelhas e as plantas que elas polinizam?” Entre o compromisso social e até utópico, a precariedade e durabilidade, é a imagem de um certo despojamento orgânico que se apresenta. Na intrusão que a realidade opera, os materiais configuram equilíbrios e tensões, fragilidade e partilha através dos quais a natureza constitui o meio privilegiado de expressão. Ao longe, o eco das palavras de A Besta Inominável de René Char. Um reencontro com o silêncio:

Dos cascos às presas inúteis,
ela está envolta em fedor.


Assim me aparece no friso de
Lascaux, mãe fantasticamente
mascarada,

A Sabedoria de olhos cheios de
lágrimas.






Eduarda Neves
(a autora escreve segundo a antiga ortografia)

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