Da Paisagem ao Mapa - Capítulo IV
Mafalda Santosum estranho vaguear
Por detrás, como um animal furtivo, esconde-se sempre, e uma vez mais, a questão da verdade. (Werner Herzog)
Há obras que, como alguns livros, não aspiram à posteridade. Singularmente movem-se como viajantes sem destino. Não fazem mais que existir. Sem verdade, apenas cumprem a sua condição de abertura, atravessam o tempo e prolongam memórias. O quarto momento do ciclo de exposições designado “Da paisagem ao mapa — capítulo IV”, ocupa o seu lugar na galeria Armazém Fundo, espaço que opera uma relação de contiguidade com a livraria Térmita. Esta situação faz articular mundos impossíveis que convocam a partilha de intensidades através das quais não encontramos a lógica da exactidão ou do comentário. Apenas o rumor da língua. Tanto melhor se aquelas não correspondem à realidade pois a comunhão é uma espécie de alquimia e não um qualquer modo de ser da verdade.
Nestes Enredos as histórias não se contam através de signos escritos, da soberania de múltiplos regimes da linguagem ou frases impressas — projectam figuras informes que nenhuma língua é capaz de narrar. Inacabados, os enredos sobrepõem-se. Bloqueiam e confundem. Linhas, manchas e sombras desdobram-se num conjunto de forças transformado em movimento contínuo. Permanecem na imobilidade do tempo, sem cor, perdidas no espaço que lhes confere uma outra desordem. É isso que guardamos — um certo desamparo.
Como uma fortaleza que encerra todo o estranhamento da matéria e resiste no silêncio, um livre_livroimpossibilita a promessa totalizadora do conhecimento, inscreve-se num território indefinido, sem prescrições, numa fantasmagoria que faz desaparecer a sacralização da ordem do saber. Este deixa de ser programável, configura-se numa obra que modifica a significação e inscreve potencialidades dinâmicas extra-ordinárias. Nestas massas visuais, o sentido é anunciado como transgressão e as imagens recordam-nos que não são apenas as palavras que ajudam ao esquecimento.
Um lance de dados jogado ao acaso encontra o seu território em volumes que repousam na superfície transformando-se em cenas espaciais. Fazem implicar a profundidade das miragens, planos sucessivos e distantes, a ordem do aparentemente semelhante. Quando a imagem se manifesta como forma no exterior do texto e se dissemina como série indefinida, é o delírio que substitui a interpretação. A inteligência artificial não apreende o imenso caos ou a força do combate. Os dados estão lançados. A liberdade não é um acaso.
As palavras recolhem-se no livro de artista. Palavras que não são exactas. Devolvem-nos grafismos, sons, texturas. A plasticidade da matéria. Nasce uma obra. A vida não cabe nas folhas de papel. Retomamos as histórias de maneira derivada e silenciosa, como uma cerimónia através da qual se interroga a violência da realidade. A apoteose espacial da superfície projecta caracteres, marcas, traços, configurações, que potenciam a omnipresença dos espaços vazios sem a regulação da verdade.
A soberania de elementos gráficos compõe o dispositivo que fixa os limites da mimesis. A paisagem cresce como um inventário e aproxima-se do estado denso de um mapa. A indeterminação torna-se uma performativa recusa da referencialidade. Um estranho vaguear começa.
Eduarda Neves
A autora escreve segundo a antiga ortografia