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coisas que habitamos, coisas que deliram


Pouco depois, desencadeou-se a loucura do mundo.
Maurice Blanchot — A Loucura do dia. Lisboa: Edições Sr. Teste, 2020, p. 8.



Espaço Mira — Janeiro 2025


Apenas o silêncio onde tudo se reúne. A ilusão e a fantasia convocam a memória e a paixão dos detalhes. As coisas desdobram-se em modos indeterminados — sem fronteiras entre interior e exterior, particular e universal, matéria e espírito, objectos e ideias. Molduras e espelhos afectam-se e contradizem-se — sem limitações. Linhas e cabelos. O esplendor do nós ou a quarta pessoa deleuziana que nesta exposição desperta. Entre a madeira e o vidro, o metal e o tecido, o papel e a linguagem, cada coisa torna-se uma multidão que ora nos atrai ora nos afasta. Suspensas em fios de seda, cabelo e algodão, na forma de alfinetes ou bastidores de madeira, as coisas densas e claras, opacas e transparentes, mostram-se como restos que se oferecem na sua finitude — o que é uma coisa? perguntou Heidegger. Como dizê-la? Procuramos o que os outros não querem saber. Persistimos no tempo e no que existe.

Pés e mãos, sapatos e luvas, guarda-jóias, travessões e ganchos, perucas, bonecas e espelhos — naturezas vivas que nos são dadas através da relação necessária que entre o esquecimento e o horizonte do prazer se instaura. Presenças usadas figuram na disposição soberana de histórias cuja anatomia se imobiliza no mistério das circunstâncias.  No reino das coisas, é a invisibilidade dos corpos que sugere a teatralidade e a torna luminosa no espaço, evoca as formas e imagens que, na sua matéria, se abre à superfície, ao afastamento, à consistência ou à fragilidade. O olhar aproxima-se e distancia-se, rasga-se na intenção ou no acidente. Olhar de lado como quem está condenado a fugir de uma poética do toque. Uma qualquer extensão imaginária das máquinas de cena é o que as coisas parecem incorporar — a aventura de, ao contrário do Eclesiastes,   correr atrás do vento.

A prática artística, tornada arte do fantasma e do real, assegura a materialidade e os sentidos, os corpos ausentes e presentes, a finitude na pobreza das coisas. Neste modo de ser das existências, nas quais a radical imperfeição consagra a grande saúde nietzschiana, acompanhamo-nos a nós próprios e encontramos a possibilidade de habitar o vasto cosmos. Nas palavras de Joseph Brodsky — um objecto é o que torna íntimo o infinito. Habitar abertamente os delírios e perturbar os nomes que imobilizam as coisas é o que uma exposição ainda pode cumprir.




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*a autora escreve segundo a antiga ortografia

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