Bem-vindos ao que acreditam ver
Recuperar na terra os tesouros que se tinham dilapidado nos céus. 1Um corpo errante transfigurado na palavra, no som e na voz, mergulha num dispositivo cénico que dramatúrgica e brechtianamente se desnuda. A força da máquina da imobilidade dissimula-se na evocação de uma inquietude. A multiplicidade dos sentidos inscreve-se numa espécie de alquimia que se abre à organização simbólica da temporalidade diacrónica e sincrónica— Dante Alighieri e nós. Imagem e memória. Uma qualquer forma de esquecimento. Desdobramento de cenas no espaço cénico. Sublimação da energia. Entre a lentidão do silêncio no olhar e o peso da carne, é o jogo entre a obscuridade e a luz que se manifesta na arquitectura do detalhe e no gesto em desequilíbrio. Nenhum lugar para a espectacularização do corpo, apenas a matéria que ele possibilita enquanto superfície de exteriorização do trabalho interpretativo. Operando na abundância de um conjunto de objectos, é um campo de ligação, choque e ruído que nos é permitido experienciar. Em deriva.
1 Michel Foucault — O pensamento do exterior. São Paulo: Editora Princípio, 1990, p. 22.
É assim que em Icona,2 de Silvana Ivaldi, o singular compromisso entre a tecnologia e a libertação de um qualquer aprisionamento ao texto original dialoga com a plasticidade da voz e do gesto, a reminiscência das evocações artaudianas ou até a fugaz sombra de Kleist e a elipse como trajecto próprio da marionete. Nesta obra, na qual os anjos têm asas capazes de se movimentarem entre a catástrofe e a pulsão, a aventura do paraíso surpreende-nos no espanto que nasce de uma máquina que produz algodão doce e convoca nuvens que fragmentam a unidade de um qualquer deus ex-machina. Nada a representar, nada a descrever. A verdade é apenas ritualização e repetição do tempo primordial que o corpo integra na viagem ao mundo dos mortos. Entre gritos brutos e saturados, é nesse refazer da experiência que o acto artístico igualmente abandona a subordinação ao neoplatonismo que privilegia o uno em relação ao múltiplo. Comungando o modo de um excesso, escavando passagens e mediações, é a distância da mimese e da catarse que nos é oferecida como partilha. Não há equilíbrio das paixões nem emoções para aliviar. O que Icona tem para nos conceder é a grandiosidade da transcendência na forma da mais pura das imanências. Dante e Beatriz em contínua mudança — não existe um “eu” nem afirmação da eternidade mas somente contingência e heterogeneidade.
2 Icona, dedicado ao Paraíso, constitui o terceiro e último momento de um projecto no âmbito do qual Silvana Ivaldi se apropria livremente do universo da Divina Comédia de Dante Alighieri. Assim, na sinopse de Paraíso (criada pela artista como uma assemblage a partir de textos de Valentina Tanni, Alice Scornajenghi, Santa Teresa d’Ávila, Frontisi-Ducroux, Claire Bishop, Oriana Fallacci, Pier Paulo Pasolini, Chris Kraus, Pagu, Lous Andreas-Salomé, Marina Tsvetaeva, Jennifer Doyle, Eduarda Neves, Silvana Ivaldi e Rui Lopes), já antevemos a complexidade da abordagem que o espectáculo propõe. Os momentos anteriores, Dolce Still Nuovo [2020] e Haze Gaze [2022], foram construídos, respectivamente, a partir dos capítulos Inferno e Purgatório.
2 Icona, dedicado ao Paraíso, constitui o terceiro e último momento de um projecto no âmbito do qual Silvana Ivaldi se apropria livremente do universo da Divina Comédia de Dante Alighieri. Assim, na sinopse de Paraíso (criada pela artista como uma assemblage a partir de textos de Valentina Tanni, Alice Scornajenghi, Santa Teresa d’Ávila, Frontisi-Ducroux, Claire Bishop, Oriana Fallacci, Pier Paulo Pasolini, Chris Kraus, Pagu, Lous Andreas-Salomé, Marina Tsvetaeva, Jennifer Doyle, Eduarda Neves, Silvana Ivaldi e Rui Lopes), já antevemos a complexidade da abordagem que o espectáculo propõe. Os momentos anteriores, Dolce Still Nuovo [2020] e Haze Gaze [2022], foram construídos, respectivamente, a partir dos capítulos Inferno e Purgatório.
Ritmos da longa duração iconográfica que tanto animais como a natureza, aves e água, conferem ao paraíso: um modo imaginário, nunca demasiadamente. Argumentou Klossowski que a licenciosidade, o deboche e o erotismo não deixaram de encontrar as suas referências nos mitos, nas reflexões teológicas e na vida religiosa. Figuras da epifania que se inscrevem no combate inesgotável do nosso universo cultural e que continuam a estar presentes nas construções mentais. É o corpo teatralizado, intolerável e intolerado, que se desloca entre o jogo de alianças, oposições, intensidades afectivas e que está condenado à luta infinita. Linguagem e epiderme, selvajaria ontológica. Levantam-se os braços para brindar à finitude irremediavelmente atraída pelo destino sem protecção.
A transgressão amorosa como movimento cósmico que este objecto artístico instaura, constitui-se como discurso marginal, barthesiano:
A transgressão amorosa como movimento cósmico que este objecto artístico instaura, constitui-se como discurso marginal, barthesiano:
(...) O meu pensamento profundo sobre o sujeito apaixonado é o de que ele é um marginal. (...) Neste momento, ao sujeito apaixonado só resta separar-se do discurso analítico na medida em que este fala, é certo, do sentimento amoroso, mas de uma forma, finalmente, sempre depreciativa, convidando o sujeito a reintegrar uma certa normalidade (...)3
3 Roland Barthes — O Grão da Voz. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 279.
3 Roland Barthes — O Grão da Voz. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 279.
Repitam comigo: o paraíso é, no fim de contas, um motivo poético. Repitam comigo: em Ícona o paraíso é, no fim de contas, a vagabundagem do corpo e Beatriz a fundadora da inversão de todos os valores. Cumplicidades enganadoras de mise-en-scène — insubmissão e redenção, sem drama metafísico. Monotonia da lei violada na sua incansável solicitude. Afastados os guardiães, a resignação e o castigo, é a profundidade do desejo que impera. Beatriz em devir: “O olhar de repente alterado, falso, preso no mal, na morte. (...) Digo-lhe que venha, que deve possuir-me de novo. Ele vem. (...) Digo-lhe este desejo dele.”4
4 Marguerite Duras — O Amante. Lisboa: Editora Difel, 1984, p. 39.
Press ‘X’ to enter paradise, lemos em repetidas e sucessivas projecções videográficas de Icona. Três écrans. A Trindade. Ainda Primum Mobile, onde habitam os anjos. O peso e a leveza. As esferas do paraíso e os limites da teologia, um mapa da superação. Incomunicabilidade entre personagens similares. Beatriz guia Dante. A libertação, o ensinamento e o mistério. ‘X’ é a password e uma efabulação.
O paraíso é como em água profunda um corpo grave. Na visão do céu e na figura do escritor, retomamos as palavras de William Forsythe em Artifact — bem-vindos ao que acreditam ver.
4 Marguerite Duras — O Amante. Lisboa: Editora Difel, 1984, p. 39.
Press ‘X’ to enter paradise, lemos em repetidas e sucessivas projecções videográficas de Icona. Três écrans. A Trindade. Ainda Primum Mobile, onde habitam os anjos. O peso e a leveza. As esferas do paraíso e os limites da teologia, um mapa da superação. Incomunicabilidade entre personagens similares. Beatriz guia Dante. A libertação, o ensinamento e o mistério. ‘X’ é a password e uma efabulação.
O paraíso é como em água profunda um corpo grave. Na visão do céu e na figura do escritor, retomamos as palavras de William Forsythe em Artifact — bem-vindos ao que acreditam ver.
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*a autora escreve segundo a antiga ortografia
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