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o silêncio, a eternidade





Corpos que são espaço. Corpos que ocupam o espaço num certo grau correspondente às singularidades que produzem — apenas imanência sem a produção da identidade entre significado e significante, sem lugar para o regime de sentido do realismo. A paixão pelo real a inventar é atravessada por segmentos enunciativos que, na forma de corpos, mutuamente se fundem e transfiguram, se lançam na aventura que faz explodir a máquina lógica da representação normalizada. Desmaterializado e reinterpretado, o corpo gera mutações subjectivas, multiplicidades indeterminadas, passagens e fracassos. Um campo magnético expande-se numa certa poética da melancolia configurada na imagem de duas mulheres que se vão transformando através da IA —Espaço Denso Não Ilimitado (EDNI), nas palavras de João Martinho Moura. Uma espécie de autopoiesis na sua dimensão mais íntima produz uma rede através da qual a simultaneidade mobiliza regularidades em sucessivos desdobramentos. Corpos que são temporalidade e alianças: “o tempo não refaz o que perdemos; a eternidade guarda-o para a glória e também para o fogo.”1

1 Jorge Luís Borges — O Aleph. Lisboa: Editorial Estampa, Colecção Ficções, nº 7, 1988, p. 41.

Bifurcações da finitude e da memória que nos projectam tanto nos retratos suaves e desfocados de mulheres fotografadas por Julia Margaret Cameron como em rostos contemporâneos que evocam uma aparente e perturbadora imobilidade enquanto condição crítica da mulher na actualidade. Somos convidados a repensar os conceitos de profundidade e superfície. Nas palavras de Gilles Deleuze, “dir-se-ia que a antiga profundidade se desdobrou na superfície, converteu-se em largura.”2 Submergidos na plasticidade da relação claro-escuro que a cena nos oferece, os corpos deslizam no espaço físico e ficcionado, à descoberta de si mesmos — nada a comunicar. É nessa profundidade da grande dimensão, na margem ou na fronteira da superfície, que as imagens se prolongam na horizontalidade da largura. Apenas improbabilidades que se operam.

2 Gilles Deleuze — Lógica do Sentido. São Paulo: Editora Perspectiva, 1998, p. 10.

À semelhança de um estado que antecede a linguagem, o espaço cénico garante a espectralidade do não semelhante e a indiscernibilidade que figura na imagem e na luz, na matéria e na carne. A substância e a epiderme, o som como instrumento de afecção. Sem classificações individualizantes, EDNI, de Né Barros, propõe-se como universo de lutas que se alteram e deslocam, se inventam. Através delas a tensão consagra a soberania de uma ética: artística e íntima. Sem ordem linear — passado, presente, futuro — o corpo abre-se à falha e ao limite, à potência de desejar: a transindividualidade que o arrasta no seu próprio movimento e processo. O mais temível e o mais grandioso. O heterogéneo que não permite negociação, o intratável, para falar como Patrice Loraux. Ultrapassar o interior do dispositivo a partir do qual o poder se exerce, impedir que as múltiplas relações de sujeição se fixem e consagrem.


De forma alternada, as narrativas visuais de EDNI resistem a enunciados dominantes e transportam consigo mapas particulares que nos arrastam para atmosferas próximas da beleza do voo e da extensão de linhas imaginárias. Não é apenas o movimento que encontra a arte, é o sentido que convoca o inaudível, a possibilidade da transgressão que se faz anunciar. Inundada de luz, a escuridão abre o caminho do gesto. É este que, projectando radicalmente a complexidade da escolha, se torna corpo e dissolve na escultura que glorifica o tableau vivant. 

Uma performer, tal como a força e a gravidade, mantém fixo o eixo do pêndulo. As mulheres e as imagens. Velocidades.

3 Marguerite Duras — A Vida Material. Lisboa: Difel, 1994, p. 54.


A liberdade sob o olhar de um cavalo:
“Portanto, antigamente era assim. Antigamente, esteja eu onde estiver, seja qual for o século na história do mundo, vejo a mulher numa situação limite, insuportável, dançando sobre um fio por cima da morte.”3



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*a autora escreve segundo a antiga ortografia

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