Exposição de Bartolomeu Gusmão
texto para catálogo o tempo, o corpo, a florestaA doutrina da floresta é como a história humana, antiquíssima, talvez até mais antiga doque ela.
(Ernst Jünger)
À semelhança dos órgãos da planta que são folhas transformadas, como escreveu Goethe, as formas plásticas em metamorfose que Bartolomeu Gusmão nos propõe afastam-se da tentação de um desenho explicativo. Imponentes superfícies cromáticas em transição — que a densidade da linha e da cor vão na tela modulando — configuram o espaço. A espessura da natureza, tomando como sujeito o corpo vivo, liberta organismos e potencia energias que viajam através da matéria. Irradiando frio e calor, são a Lua e o Sol, a Primavera e o Verão que nos conduzem às memórias de um certo primitivismo.
O gato observa-nos, distante e imóvel. O apelo táctil. A espera. Imaginamos que nesse fim de tarde e no espaço que traça a ínfima curva, o animal se transmuta num esboço do repouso. O que verá ele de olhos abertos? Que mundo o afecta? Figuras interrompem a vegetação e celebram a luz, lugares repetem-se nas existências sem angústia, sem fisicalidade espectacular. Mostram-se na sua insignificância, quase despercebidos. Não são extravagantes nem dominados por códigos que incitam à culpa ou à falta, a operações terapêuticas ou à autocomplacência — a arte deve ser compreendida como uma acção dentro da própria vida, disse John Cage. As formas da interioridade que se diluem na res extensa, uma e a mesma coisa na paisagem. O direito a ser o que se é:
Nós somos 50 poemas
o resto não somos nós mas o nada que nos veste (Antonin Artaud)
Quando copio da natureza um elemento do meu quadro, é aquele que não está lá — afirmou Degas. De igual modo, nas pinturas de Gusmão, é esse teatro das pulsões que não exprime o sexo-desejo mas sim os corpos e prazeres sem axiomas totalizantes. É ainda entre o desenho e a pintura que estas representações se inscrevem na memória de uma hierarquia das artes que, porém, não deixa de ocultar uma certa acção subversiva — a pura experiência do gesto. Operando a ligação à natureza— a nossa casa— e mobilizando outras relações de vizinhança que a história esqueceu, o território de experimentação converte-se em paisagens insólitas através das quais vestígios de gloriosos mistérios da harmonia se adensam. Árvores que têm a força necessária para voltarem a partir. Só o tempo mudou.
Nestes lugares de aliança, a partir dos quais podemos escutar vozes comuns, onde descobrimos a terra e o fogo, as plantas, o ar e a água, é a mesma superfície que nos aproxima. Nas palavras de Michel Serres — impondo-se ao nosso esquecimento e à nossa ingratidão, a Biogeo faz-nos por sua vez esquecer as nossas mil redes de separação. Assim é com as obras que potenciam o espaço expositivo que, sem mistificar, ainda nos permitem tomar partido e ensaiar um universo sempre em aberto que a radicalidade substancial da pintura convoca. Abundância e materialidade transbordante figuram nesta incorporada alegria dos sentidos, na hospitalidade da tensão interna da origem.
Um coqueiro permanece silencioso na atmosfera rasgada por manchas luminosas que não falam de pecado ou salvação. Apenas o intenso saber fazer pictórico que se oferece na opacidade singular da representação. A vida secreta do mundo.
O gato observa-nos, distante e imóvel. O apelo táctil. A espera. Imaginamos que nesse fim de tarde e no espaço que traça a ínfima curva, o animal se transmuta num esboço do repouso. O que verá ele de olhos abertos? Que mundo o afecta? Figuras interrompem a vegetação e celebram a luz, lugares repetem-se nas existências sem angústia, sem fisicalidade espectacular. Mostram-se na sua insignificância, quase despercebidos. Não são extravagantes nem dominados por códigos que incitam à culpa ou à falta, a operações terapêuticas ou à autocomplacência — a arte deve ser compreendida como uma acção dentro da própria vida, disse John Cage. As formas da interioridade que se diluem na res extensa, uma e a mesma coisa na paisagem. O direito a ser o que se é:
Nós somos 50 poemas
o resto não somos nós mas o nada que nos veste (Antonin Artaud)
Quando copio da natureza um elemento do meu quadro, é aquele que não está lá — afirmou Degas. De igual modo, nas pinturas de Gusmão, é esse teatro das pulsões que não exprime o sexo-desejo mas sim os corpos e prazeres sem axiomas totalizantes. É ainda entre o desenho e a pintura que estas representações se inscrevem na memória de uma hierarquia das artes que, porém, não deixa de ocultar uma certa acção subversiva — a pura experiência do gesto. Operando a ligação à natureza— a nossa casa— e mobilizando outras relações de vizinhança que a história esqueceu, o território de experimentação converte-se em paisagens insólitas através das quais vestígios de gloriosos mistérios da harmonia se adensam. Árvores que têm a força necessária para voltarem a partir. Só o tempo mudou.
Nestes lugares de aliança, a partir dos quais podemos escutar vozes comuns, onde descobrimos a terra e o fogo, as plantas, o ar e a água, é a mesma superfície que nos aproxima. Nas palavras de Michel Serres — impondo-se ao nosso esquecimento e à nossa ingratidão, a Biogeo faz-nos por sua vez esquecer as nossas mil redes de separação. Assim é com as obras que potenciam o espaço expositivo que, sem mistificar, ainda nos permitem tomar partido e ensaiar um universo sempre em aberto que a radicalidade substancial da pintura convoca. Abundância e materialidade transbordante figuram nesta incorporada alegria dos sentidos, na hospitalidade da tensão interna da origem.
Um coqueiro permanece silencioso na atmosfera rasgada por manchas luminosas que não falam de pecado ou salvação. Apenas o intenso saber fazer pictórico que se oferece na opacidade singular da representação. A vida secreta do mundo.
Eduarda Neves
A autora escreve segundo a antiga ortografia