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como na pintura, um pouco de céu

Texto escrito para a exposição "Diálogo Duplo"
Museu Aurélia e Sofia de Souza





Uma pessoa acha-se a si própria e não sabe o que fazer com isso.
(Peter Sloterdijk)


A longa ordem da espera. Talvez aí nada exista de novo. O que parece mudar singularmente é a curiosa figura da entrada. Uma mulher com um chapéu na cabeça. Ou será um pássaro? A medida de todo o delírio. O avesso e uma combinação de sons comuns. O espaço doméstico fixa o sentido que estranhas composições anunciam. Histórias que permanecem — quadros, alfinetes, imagens de família e do quotidiano, paisagens, naturezas-mortas, flores, jarras, móveis, bules, chávenas, porcelanas, espelhos, bordados, rendas, aves, bonecas, livros, crianças. Cenas familiares. A mãe. A irmã. O rio. O Douro. Pinturas e fotografias. Retratos e auto-retratos. Experiências da subjectividade e de narrativas por acontecer — a vida e uma casa. Um museu invadido por discursos esquecidos. Não sabemos onde começam e acabam. É sempre uma derivação de trajectos que se instauram como desdobramentos. As aberturas constroem-se entre blocos que permanecem como refúgios solitários. Habitam a vertigem da coragem. Esperamos.

Viagens através de múltiplas geografias perdem-se na desordem da ficção. Objectos afundam-se em memórias destinadas a apagar traços do que quer permanecer secreto. Não há ninguém para abraçar. Ouvem-se passos lá fora. As vozes. Os pássaros pintados que cruzam os biombos e esvoaçam no papel de parede. As discretas janelas da casa eternizam o Verão. Ninguém carrega a agonia do esquecimento ou a exaustão do falso milagre do progresso. Tudo repousa no equivalente solar. Nunca compreendemos o que queremos ver ou o que nos aparece. As paredes da casa guardam a escuridão que oculta um universo povoado de corredores. Acreditamos que todos os pontos de vista os percorrem. Não sabemos o que dizem e se mudam de sentido — como Sexta-feira, de Michel Tournier: “era isto outrem: um possível que se obstina em passar por real”.1 Uma e outra vez o desconhecido de outros tempos. Outros mundos: “não um outrem, mas um outro do outrem. Não uma réplica, mas um Duplo.”2 Reconhecemos o dia seguinte e nele continuamos. Mesmo que tudo rebente na glória da clandestinidade.

1 Gilles Deleuze — Lógica do Sentido. São Paulo: Editora Perspectiva, p. 326.
2 Gilles Deleuze — Lógica do Sentido...p. 326.


Não limitar o movimento ao demasiado local. Devolver as viagens ao atelier da pintora como uma longa linha que habita o seu caminho e toma a forma de um estado intenso de fluxo. Acordo, dissonância e troca. Dispersão. Um destino adiado que não imita a vizinhança e se constrói como errância. Cruzando tempos e lugares, uma mulher-artista suspende o medo e afasta-se da experiência trágica do fracasso. De uma e muitas épocas. A libertação da vigilância — o Eu é uma contingência, uma superfície marcada por linhas, marcas e rugas, não-biográfico: “o encontro com os outros é o verdadeiro encontro connosco”.3 Estudamos a história. Descobrimos que a vontade desfaz a lei — o singular é colectivo e heterogéneo. Um conjunto ilimitado. Como argumentou Michel Foucault, sentimo-nos muito felizes, ao contrário dos metafísicos, por abrigarmos não uma alma imortal mas muitas almas mortais:

3 Eduardo Lourenço — O Labirinto da Saudade. Lisboa: Gradiva, 2001, p. 180.
E, em cada uma destas almas, a história não descobrirá uma identidade esquecida, sempre pronta a renascer, mas um sistema complexo de elementos múltiplos, distintos, e que nenhum poder de síntese domina. (...) Nós compreendemos os nossos semelhantes como sistemas inteiramente determinados e como representantes de culturas diversas, quer dizer, como necessários e modificáveis.4

4 Michel Foucault —Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, p. 21.

Transformar o regime da verdade, o corpo ideológico que regula, organiza e define o sujeito. Desnaturalizar o significante. Desbloquear modos de representação e instaurar a falha. Neutralizar os mecanismos de poder que fabricam identidades. A menina Aurélia. Um biombo que se oferece para brincar. O coelho da Alice multiplica-se em infinitos duplos e arrasta consigo o início de aventuras que convocam deuses, vapores, paixões. O programa cintilante da infância mobiliza imagens que devolvem o espaço ao universo de um quarto encantado. As escadas apontam para o céu. Por vezes aparecem pessoas que sobem e descem. Sem nostalgia, circulam para decifrar os mistérios das naturezas-mortas, paisagens, vestidos e figuras imóveis, em descanso ou em trabalho, pictoricamente representadas. Nunca é tarde demais. A artista olha-nos fixamente. O nome não foi esquecido. Aurélia de Sousa ou o argumento nietzschiano — a dissipação que se oculta sob as máscaras do eu anula qualquer identidade. Sem o desespero do homo psychologicus, os espíritos preferem as delícias dos jardins às controvérsias fúnebres. Casa-antiquário em direcção contrária e sem território contínuo. Subtis aspirações que triunfam ao passar do tempo. O esplendor do vazio e a imanência da matéria. Finalmente o indeterminismo de todas as coisas. Nem organizado nem metódico. Sem objecto ideal. O abandono de qualquer coerência unitária. O espaço da auto-representação.

Na superfície espelhada, os reflexos prolongam uma constante e difusa quietude. O tempo. Palavras escritas como sombras de discursos esquecidos. Olhos abertos descobrem o combate do corpo. Tudo se assemelha. Por vezes é preciso enganar o mundo. Os nomes. Nada mais. Pequenas imagens revelam múltiplas forças solares. A calma do dia faz brilhar uma inesperada nostalgia. Olhamos para o jardim que se esconde nos vidros das janelas. O lago e as árvores desafiam velhos caminhos. Rastos tranquilos desenham travessias na mancha verde. Por fim, como na pintura, um pouco de céu. Voltamos à casa.





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