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Passagens

THESPACEINYOURHEAD — Cláudia Lopes e Carla Cruz




Não conhecer o instante da passagem, a hora da mão vazia.
(Christian Bobin)


O tempo passa e move-se através da luz na sua improdutividade exemplar. O tempo forma-se no barro. Procura as marcas de um território que se apresenta silenciosamente em repouso e anuncia camadas do mundo que surgem entre argila e pedras, água, linhas e texturas. A matéria não procura um novo léxico. Convoca o desejo infinito e partilha a economia da reciprocidade. Como um dom obscuro, é a vida do colectivo que se transfigura em potência amorosa e se objectiva no soberano lugar da obra. Sem acordo perfeito nem ordem imposta, os fragmentos que ocupam o espaço expositivo na sua melancólica nudez, fazem reaparecer os gestos eternamente deslocados, sabiamente errantes. É nas múltiplas camadas dos estratos que o vazio das mãos se afunda.


Na sua falsa correspondência com o modelo, vestígios testemunham o prolongamento de miragens. Arrancam profecias à terra. Escreveu Mircea Eliade que o Ocidente experimenta algum incómodo perante diversas manifestações do sagrado — para alguns de nós é difícil aceitar que o sagrado pode manifestar-se em pedras ou árvores, por exemplo. Um combate pela sobrevivência cósmica. A repetição é sempre e em cada vez uma partida originária que conduz a outras tantas formas das imagens. Entre a mutação e o devir, fragmentos de enunciados e operadores da memória, é a interrogação genealógica que torna secundária a procura de qualquer verdade. São prodígios imperfeitos que acompanham os nossos vulneráveis templos.


Permanente impermanente — o corpo sem antes nem depois. Apenas o desconcerto de todo o estranhamento.




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